TelexFREE é uma pirâmide?

Recentemente muitas pessoas sofreram prejuízos desnecessariamente, devido a investimentos em esquemas financeiros.  Um exemplo é o TelexFREE.   Em julho deste ano esta empresa foi impedida judicialmente de exercer suas funções.  Muitas pessoas estão confusas sobre o que está acontecendo. Aparentemente, algumas dessas pessoas não sabem o que é uma pirâmide financeira.   Neste artigo, venho tentar esclarecer as questões fundamentais sobre pirâmides financeiras.   Notem, por favor, que embora o título contenha a palavra TelexFREE, de fato este artigo não é sobre o TelexFREE, mas sim sobre a natureza de pirâmides financeiras.

Mas, antes, venho lamentar o estado da educação no Brasil.  Do meu ponto de vista, essa confusão sobre pirâmides é consequência natural do péssimo estado de educação no país. Já fui professor de ensino fundamental e médio e conheço a primeira mão os vários problemas. Em 2013 o Brasil ficou em último lugar na América Latina no ranking da PNUD da ONU.  Enquanto que a escolaridade média do brasileiro é inferior a 8 anos, por outro lado a dos Norte-Americanos é superior a 13 anos.   A falta de escolaridade e de educação cria muitos problemas, sendo um deles o analfabetismo financeiro.   Por exemplo, os defensores das empresas, reagindo às acusações sobre serem pirâmides, reagem fazendo afirmações absurdas.  Alguns andam dizendo que a pirâmide é o Congresso Nacional!  Só falta então dizer que as pirâmides do Egito foram construídas por aliens!   O analfabetismo científico e o analfabetismo financeiro tem origem, em parte, na falta de educação de qualidade.  Levam a consequências negativas tanto para o indivíduo como para a sociedade.

Uma pirâmide financeira é uma maneira de ganhar dinheiro que depende da entrada de um número cada vez maior de pessoas participando para o esquema não quebrar. Como a população do planeta é finita, uma pirâmide financeira não pode operar por muito tempo. Ou ela quebra, devido a falta de entrada de novas pessoas, ou então, muito raramente, o esquema se transforma, via calote parcial, para se tornar sustentável, não sendo mais, então, uma pirâmide.

Um exemplo para ilustrar a ideia: Digamos que uma empresa PIRAMIDE S/A ofereça um retorno financeiro mensal de 50%, muito acima do que é encontrado no mercado financeiro.  Obviamente, muitas pessoas sem conhecimento sobre finanças irão querer entrar nesse esquema.  Vamos supor que os gerentes da empresa usem todo o dinheiro que entra na empresa para pagar o retorno financeiro aos clientes.  Digamos que no primeiro mês a empresa captou 1000 reais de 10 clientes que entraram com 100 reais cada, tal que 30 dias depois a empresa precisa ‘devolver’ 1500 reais. Cada uma das 10 pessoas precisa receber de volta 150 reais. Como eles entraram com 100 reais, o retorno financeiro é 50%, altíssimo.  De onde vem esses 500 reais adicionais?   Ela precisa sair de algum lugar. De onde ela vem?  A resposta é simples: Os 500 adicionais vem do bolso de novos clientes!    Então, supondo que cada cliente possa comprar uma participação no esquema em parcelas de 100 reais, são necessários 5 novos clientes ou parcelas.

É importante notar que os 500 reais que entram vindo dessas 5 novas pessoas servem para pagar apenas os ‘juros’ das primeiras 10 pessoas! Se as 10 primeiras pessoas continuarem com os 1000 reais investidos, então no segundo mês será necessário a entrada de mais 5 pessoas, além dos primeiros 5 que já entraram!   Veja bem que ainda nem contabilizamos o retorno financeiro dos 5 novatos inicais.  Como o retorno financeiro é alto, existe um forte incentivo para os clientes não pedirem para sacar o valor investido. Os gerentes podem, assim, manipular seus clientes (na verdade, suas vítimas) por um tempo prolongado.

O nome ‘pirâmide’ vem do fato de que os clientes iniciais precisam recrutar  novatos, que formam então a segunda camada. Esses então precisam recrutar a terceira camada, etc.   Em princípio, camadas inferiores precisam ser maior do que as camadas superiores, para permitir que as pessoas nas camadas superiores possam começar a sacar.  O recrutamento de mais e mais novos clientes, que então se tornam novos recrutadores,  é um dos requisitos de pirâmides financeiras.

Note também que é impossível devolver o dinheiro investido para todo mundo simultaneamente.  Em pirâmides financeiros, é impossível todo mundo sacar o dinheiro simultaneamente, mesmo em teoria.  Já em fundos de investimento, por exemplo, é possível liquidar todos os ativos para devolver integralmente todo o saldo dos clientes, pelo menos em teoria se não em prática.

Existem variações de pirâmides, como por exemplo o esquema de Ponzi, que é um pouco mais centralizado relativo às pirâmides financeiras.   Mas a ideia básica é a mesma:  O aspecto mais importante é a insustentabilidade desses esquemas.

Como eu trabalhei por vários anos na área de Econofísica, conheço um pouco sobre finanças.   Posso afirmar, com uma certa segurança, que pirâmides financeiras representam, quase sempre, fraudes. Os clientes são as vítimas.  É sempre difícil dizer isto para quem acredita piamente nos esquemas. Tipicamente, as vítimas dessas fraudes se tornam grandes defensores dos esquemas. É irônico e triste ver a vítima defendendo o agressor.

Um pouco mais de 1 ano atrás, quando conhecidos me falaram sobre o assunto e as maravilhas que eram esses negócios, eu imediatamente pensei na questão da sustentabilidade do esquema.   Expliquei que eu jamais iria querer entrar num esquema desses, pois rentabilidade e risco caminham juntos. Um retorno financeiro astronômico é possível sinal de risco também astronômico.  Essas informações estão na Internet e qualquer pessoa pode usufruir delas. Mesmo assim, as pessoas viram vítimas e acabam sofrendo desnecessariamente. O que fazer?

Na verdade, é sim possível ganhar dinheiro numa pirâmide, se você se cuidar de sair da camada mais baixa o mais rápido possível e então sacar todo seu saldo antes da quebra. Isso é possível, mas é ariscado.  Em jogos de loteria, muitos perdem para que poucos possam ganhar muito.  Da mesma forma, é possível ganhar dinheiro numa pirâmide.  Certamente, os criadores dessas fraudes tipicamente ganham muito dinheiro.  Obviamente, existem problemas éticos e essas práticas frequentemente representam crimes.  Um caso famoso recente é Bernard Madoff. Ele era considerado um grande investidor, mas hoje está na prisão.

Voltando ao assunto:  A empresa é ou não é pirâmide?

Basta decidir se a empresa poderia sobreviver mesmo sem a entrada de novos clientes (‘divulgadores’).   Se a resposta ainda não for óbvia por algum motivo, então a seguinte indagação talvez ajude a esclarecer um pouco mais o fato crucial:

O que aconteceria se todo mundo no planeta já fosse cliente?

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