Não vote nulo ou branco!

Mais de 10% dos eleitores pensam em votar nulo ou branco nas eleições de 2018. Os motivos são diversos: 1. Há a esperança de que o voto nulo poderia anular as eleições; 2. Votar nulo ou branco poderia, em princípio, servir como protesto contra as autoridades e contra o regime de governo; 3. Existe a percepção de que votar não faz diferença, ou seja que os candidatos são todos “farinha do mesmo saco.”

Venho aqui rebater esses argumentos e sugerir a todos que não deixem de votar no seu candidato. Se o leitor ainda não escolheu seu candidato, basta usar a seguinte regra: Escolha o candidato “menos mau.” (Essa heurística é compatível com o princípio de que a redução do sofrimento não é idêntica ao aumento do prazer. No Budismo por exemplo, a redução do sofrimento é mais importante do que o aumento do prazer.)

Os argumentos contra o voto nulo e branco:

A esperança de que o voto nulo ou branco poderia anular as eleições é mero mito. Os votos nulos e brancos, de acordo com a legislação vigente, não são usados para contabilizar as percentagens dos votos ganhos pelos candidatos. Ou seja, votar branco ou nulo é jogar fora seu voto. Nem todos os países e povos vivem em democracias. Foi com muito suor (e sangue) que conseguimos conquistar o direito de votar e de viver em um país democrático. Não jogue fora seu direito. O futuro do Brasil democrático depende dos eleitores. Não vote nulo ou branco.

Com relação à forma de protesto, votar nulo ou branco é ineficaz. Ir para as ruas, fazer abaixo-assinados e mobilizar a opinião pública são formas de protesto mais eficazes. Como método de protesto, votar nulo ou branco até chega a ser patético: O voto nulo e branco é simplesmente descartado na hora de apuração das percentagens de votos dos candidatos. Então quem ganha com o voto nulo e branco? Garanto aos leitores: Não são os brasileiros. Não vote nulo ou branco.

Finalmente, existe a percepção de que os candidatos são todos igualmente corruptos ou incompetentes. Pense bem! Temer e Dilma foram iguais? Dilma e Lula foram iguais? Lula e FHC? FHC e Itamar Franco? Itamar e Collor? Geisel e Médici? Trump e Obama? Não é verdade que os políticos são todos iguais. Até “bandidos” não são todos iguais! Alguns são excepcionalmente piores do que outros. Não vote nulo ou branco.

Observações adicionais:

Do ponto de vista da razão sinal-ruído, o voto nulo e branco podem fazer o papel de diminuir a razão sinal-ruído.  O papel das flutuações aleatórias portanto poderia aumentar. Nos EUA por exemplo, a vitória de Trump poderia ser visto como um fenômeno causado pelas distorções no “sinal,” já que a instituição do colégio eleitoral daquele país acresenta um “ruído” ao sinal. Hillary Clinton ganhou as eleições do ponto de vista do número de votos do eleitorado, mas ela perdeu a eleição devido ao fato de que nos EUA é o colégio eleitoral que escolhe o presidente.  Da mesma forma, votar nulo ou branco no Brasil poderia, em princípio, mudar o resultado de uma eleição muito apertada.

Além disso, existe também a incerteza na ética. Dizem que “pior do que está não tem como ficar.” A verdade é que as coisas sempre podem piorar mais ainda! O papel da incerteza nas ciências exatas é bem conhecido, mas ainda além das ciências exatas a incerteza é ubíqua.  Edgar Morin, em seu 6° Método, cita vários exemplos de atitudes bem intencionadas que levaram a consequências nocivas. O voto nulo e branco, até quando bem intencionado, podem ter efeitos inesperados.  Se um número suficiente de pessoas votarem nulo ou branco, mesmo com as melhores das intenções, o curso da história do Brasil poderia em princípio mudar: Para pior!

Finalmente, um comentário sobre a democracia em si: Karl Popper, sem seu livro sobre a sociedade aberta, explica que o grande valor de viver em uma democracia não é necessariamente a maior eficiência do governo, mas sim o mecanismo eleitoral que nos permite remover um governante ruim sem revolução e sem violência: Basta votar em outro candidato. Por exemplo, na China a população não dispõe de um direito constitucional que permite forçar a troca do chefe de governo. No Brasil e nas democracias, as eleições garantem que a população periodicamente escolha um novo chefe de governo. Isso reduz drasticamente a probabilidade de uma nova revolução violenta.  A realização de eleições em democracias age para que as pressões sociais não tendem a aumentar além do necessário para a troca pacífica de governo pela via constitucional. Essa válvula de escape não tem preço. A democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais.

Não vote nulo ou branco!


Agradeço Claudionor Bezerra,  Heather Dea Jennings, Sidarta Ribeiro e Tanyara Clarise pelo feedback.    A inspiração para este artigo veio de um discurso do Professor Piloto feito durante aula do Grupo Capeoira Brasil do programa de extensão da UFRN.

1 thought on “Não vote nulo ou branco!

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